A moda agora, no que tange à administração estadual, são os Programas Estruturantes. Até encarte em Zero Hora saiu, dando publicidade a mais essa tentativa de reorganizar a casa e fazer funcionar adequadamente a máquina pública rio-grandense.
Em linhas gerais, trata-se de uma série de medidas que, segundo o site criado para divulgar essa nova maravilha da gestão pública moderna, pretendem "gerar mais oportunidades de trabalho, estimular a criação de um ambiente de inovação tecnológica e empreendedorismo, promover o desenvolvimento da infra-estrutura para aumentar a competitividade dos produtos gaúchos, incentivar o uso racional dos recursos naturais, melhorar substancialmente a qualidade dos serviços públicos e reduzir as desigualdades regionais". Enfim, acabar de vez com todos os problemas históricos de nosso estado, e tudo isso em apenas quatro anos.
Mas não era exatamente sobre isso que eu queria falar.
Estão previstos ainda, no programa orçado em R$ 216 milhões, a construção das barragens Jaguarí e Taquarembó, as únicas ações realmente concretas do plano. As demais – Acumulação de Água para Usos Múltiplos, Planejamento Estratégico dos Usos Múltiplos da Água e Capacitação de Agricultores – são apenas formas genéricas de se repetir os objetivos do PE.
Não se fala – nenhuma linha – de onde virão os recursos hídricos para essa irrigação. Provavelmente será do aqüífero Guarani, maior reserva subterrânea de água doce do mundo, ocupando cerca de 1,2 milhão de km² sob terras pertencentes ao Brasil (70% da área total), Argentina, Paraguai e Uruguai (dividem os outros 30%). Em nenhum momento, fala-se sobre os impactos ambientais do projeto – pomposamente denominado "Programa Estruturante" – sobre o aqüífero.
E quem serão os grandes beneficiários dessas medidas? O pequeno agricultor rural? Ou as papeleiras que, na cara dura e bem embaixo do nariz do povo gaúcho, já ocuparam quase 5% do território do bioma pampa com plantação de eucalipto? Claro, nossa grande imprensa prefere acreditar que estão sendo gerados empregos e desenvolvimento na atrasada metade Sul do estado.
Digam-me, por favor: esses R$ 216 milhões, vocês acham que são investidos em quê? Em financiamento para projetos de irrigação para a agricultura familiar? Ou para irrigar eucalipto?