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domingo, 25 de maio de 2008

Tristeza não tem fim, preguiça sim


Eu remo. Metaforicamente na vida, seja na faculdade (faz parte da crise existencial que acomete alguns fabicanos lá pelo início-meio do curso), ou no que é, digamos, mais privado, mas me refiro ao esporte mesmo.

E (por vezes) é triste remar. Não pelo frio horroso que faz às 5 e meia da manhã quando tu acorda pra dar termpo de pegar a barca das 6 e 45 e pôr o barco na água às 7, nem pela incrível solidão que muitas vezes te acomete no meio do Guaíba, ou ainda pela dureza que é ter que enfrentar a intempérie pra não ficar a deriva quando o tempo muda subtamente. Não mesmo. O que destrói mesmo alguém que gosta desse contato com esportes náuticos é perceber como está sendo morta a nossa água.

É entrar no barco depois de alguns dias de chuva e remar sacolas, garrafas, embalagens, enfim, tudo que deveria estar no caminhão da coleta seletiva ou na carroça de algum catador... Por vezes me pergunto se um dia vou poder encostar o barco numa manhã quente de verão sem ter medo da quantidade de sujeira depositada ali e que vai passar pro meu corpo, tomar um banho gostoso e refrescante no costado de qualquer ilha e voltar feliz.

Dá um pequeno alívio e alguma esperança perceber que, mesmo com todo esse cenário trágico, algumas pessoas tentam reverter a situação e não ficam de braços cruzados diante do assassinato das águas que nos cercam e das quais dependemos diretamente, não apenas pra praticar o remo, mas pra viver. Pode até parecer puxa-saquismo da minha parte, mas fico bastante contente de saber que o clube que me recebe para tal atividade física (bem como ao meu pagamento mensal), se mobilizou numa campanha pra também receber óleo de cozinha usado nas suas sedes!

Agora os preguiçosos que forem sócios de lá poderão aproveitar e pôr a mão na consciência, melhor ainda, em alguma garrafa pet e enchê-la de óleo que não será descartado de forma omissa e errônea mais uma vez ao levarem consigo tada a vez que pintarem por lá...



quarta-feira, 7 de maio de 2008

O lixo de Nápolis


A União Européia abriu um processo judicial contra o governo da Itália. O motivo é a crise do lixo, um problema crônico no país, que dura 14 anos. Em janeiro deste ano, quando mais uma vez a cidade de Nápolis chegou ao caos com toneladas de lixo espalhadas pelas ruas e rodovias, a União Européia exigiu que a Itália solucionasse o problema.

Conhecendo bem a lentidão do funcionamento da máquina pública italiana, não é de se surpeender que em quatro meses o sistema de coleta e tratamento de resíduos no sul do país ainda não tenha sido aprimorado. Como medida emergenciai, em janeiro de 2008 o governo italiano chegou a enviar à Alemanha trens carregados de resíduos domésticos para tratamento. Na ocasião, especulou-se ainda que o lixo do sul da Itália estava sendo depositado também na Ilha da Sicília. Chegando em maio, o problema volta a se repetir. Neste semana, haviam 30 mil toneladas de lixo nas ruas da região napolitana. Com a chegada do verão, a populaçaõ corre o risco maior de contrair doenças como cólera.

Além da reestruturação da coleta de resíduos urbanos, a conscientização da população italiana é fator muito importante para a resolução da crise. No centro e no norte do país, o sistema de separação e reciclagem funciona bem e é disceminada a consciência da redução da utilização de plásticos e papel.

O sul da Itália, entretanto, parece um país a parte. Subdesenvolvida e esquecida, a região enfrenta desemprego e corrupção. A população não tem o mesmo grau de informação que o restante da nação. O resultado é refletido também na crise do lixo. Em um café da manhã que tomei em um albegue de Nápolis, me foi servida a mesma quantidade de produtos descartáveis, como copos e pratos, que demoraria uma semana para consumir em qualquer outro lugar da Itália.


segunda-feira, 5 de maio de 2008

Para onde vão os computadores usados?


Entre mortos, feridos e altamente prejudicados pelo ciclone extra-tropical que passou por Porto Alegre e litoral gaúcho neste fim-de-semana, eu fiz minha mudança. Agora vivemos eu e as caixas, que estão por toda parte. Dentre os seres que povoam o chão do apartamento novo, está meu antigo computador. Um senhor da terceira idade, com dores esporádicas nas juntas, mas que ainda tem alguns anos de vida pela frente.

Estou há dias me perguntando que feliz ou infeliz destino devo dar ao Aurélio. Resolvi recorrer então ao Deus oniciente, salve Google, que trouxe luz ao caminho da minha querida máquina usada.

Existem organizações como a Fundação Pensamento Digital, que promove projetos educacionais em comunidades de baixa renda. Com a ajuda de empresas e instutições parceiras, entre elas UFRGS, PUC-RS e Dell, os voluntários dão um honrado destino a computadores usados, que recebem por meio de doações.

A ONG, localizada em Porto Alegre, recebeu prêmios como o Social Enterprise Laboratory 2003 – concedido pela Digital Partners, de Seattle, EUA. Para doar, é preciso preencher este formulário. Ao receber uma doação, a Fundação Pensamento Digital emite recibo, permitindo que o valor doado seja abatido em impostos devidos.

Eis um nobre fim, ou início, que pretendo dar ao meu Aurélio: tornar-se um agente da inclusão digital.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Peixe de plástico?

Passei o último domingo na Ilha das Flores. Churrasco, pescaria no Guaíba, passeio de barco. Em meio às atividades dominicais, me impressionou profundamente a criatividade e jogo de cintura dos moradores, em sua grande maioria pescadores, na construção de suas casas. São muito simples, pequenas, feitas por eles mesmos, verdadeiros mosaicos de itens que vão sendo encontrados pela cidade, ou comprados a preços baixos no comércio de usados.

A sucata é muito presente nas soluções do dia-a-dia dos humildes pescadores. No banheiro da casa em que estive, a extremidade da cordinha da caixa de descarga era feita com uma tampinha vermelha de garrafa pet. Recipientes plásticos se transformavam nos mais variados fins como vasos de flor e baldes.

O reaproveitamento de sucata, especialmente o plástico, não é somente uma realidade da população pobre da Ilha das Flores. Quantas vezes vemos na televisão um senhor de classe média que construiu banquinhos para a sala com garrafas pet, ou as senhoras do Clube de Mães que produziram brinquedos para doação? No último Natal Luz de Gramado, foram arrecadadas 100 mil garrafas para a decoração das ruas da cidade!

Concordo na reutilização de sucata, especialmente no caso das pessoas humildes, em que não há outra saída a não ser esta, mas não concordo com o papel da mídia e das instituições de educação e formação de opinião, no momento em que exaltam como "ecologicamente correta" a atitude de construir novos objetos a partir de garrafas pet. Esta questão deveria ser tratada com um outro viés, no sentido de não consumir tanto plástico, de reduzir ao máximo a necessidade de plástico no cotidiano. Sites como este estimulam não à diminuição de nossa dependência dos derivados de petróleo, mas a um consumismo um tanto que absurdo, direcionando ao leitor a possuir cada vez mais garrafas pet para construir puffs cada vez maiores:

"Se você é do tipo que adora dar aquela ajudinha para natureza, inventando objetos criativos e úteis, essa é uma boa dica! Além de lindo, o puff de garrafas pet é ecológico. Só em um modelo pequeno, de aproximadamente 50 centímetros, você utiliza 16 garrafas pet. Esses números podem aumentar de acordo com a sua criatividade"

Ou como no caso
desta notícia, que, após mostrar um (Lindo? Útil?) peixe produzido a partir de garrafas pet, descreve os grandiosos lucros da indústria de reciclagem de plástico. Sim, reciclar é preciso, mas devemos ir além disso, muito mais além que somente reciclar ou reutilizar. É necessário despertar consciências para a redução de nossa dependência da indústria de exploração de petróleo.

Há dois anos atrás, quando fui aluna da disciplina Jornalismo Ambiental, a professora Ilza Girardi nos apresentou o ambientalista e engenheiro agrônomo Jacques Saldanha. Ele alerta para os perigos que determinados tipos de plástico podem acarretar à saúde, especialmente o PVC (policloreto de vinila), encontrado nos plásticos “filme” para embalar alimentos e nas tradicionais tubulações de água presente em simplesmente todas (ou quase todas) casas brasileiras. (Tubos e conexões Tigre, o que são? Tubos de PVC!) A questão do PVC é o produto a ele adicionado para conferir as características físicas do plástico, como maleabilidade e maciez, ou seja, para diferenciar o produto que embala seu brócolis do produto presente nos canos de água da pia de sua cozinha. O Greenpeace publicou em 2001 um estudo preocupante sobre a utilização de PVC em produtos infantis.

O livro O Futuro Roubado apresenta diversos casos em que agentes químicos, presentes também no plástico, causam problemas ambientais e humanos como queda no número de espermatozóides, alterações no comportamento sexual e deformidade genital. No caso dos plásticos, estas alterações são causadas pelos xenoestrogênios (mais informações aqui), um formato sintético do hormônio presente no organismo, gerado pela indústria petroquímica na produção de plásticos, agrotóxicos e solventes.
É inviável tornar a vida de hoje independente dos produtos petroquímicos. Eletroeletrônicos, eletrodomésticos, automóveis, produtos de limpeza e beleza... a vida diária tem como matéria prima o "sangue negro", como diz a tradução do título do vencedor do Oscar 2008 de melhor ator e fotografia, There will be blood. O segredo, acredito, é colocar limites na indústria, preferir sempre a embalagem de vidro, refutar o PVC. Porque tampinha de garrafa no puxador da descarga de uma casa humilde, vá lá, mas peixe de garrafa pet e chimarrão em cuia de plástico, ah, é demais, meu amigo.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Pra não virar pastel


Eu adoro pastel. Daqueles bem tradicionais: carne com ovo. Sempre que posso eu faço em casa, pois é uma refeição gostosa, fácil de fazer e que agrada todo mundo. Minha única dificuldade quando frito pastéis é dar um fim ao óleo de cozinha. Eu nunca reutilizo óleo. Acho nojento. Então sempre uso uma panelada de óleo de girassol novinho para a fritada. Mas quando termino a lida no fogão minha agonia é: o que diabos eu faço com essa banha toda?

Esta dúvida durou até o ano passado, quando estudei um pouco mais sobre reciclagem de óleo de cozinha e seu reaproveitamento na fabricação de biodiesel para um trabalho. Aprendi que a maior parte da população (da qual eu não me excluía) jogava óleo na pia e, quando se achava muito esperta, no vaso sanitário. Triste. Mas aprendi também que a prefeitura de Porto Alegre tem um programa de recolhimento destes resíduos e também de destinamento à empresas que as reutilizam na produção de combustível. Bom para o meio ambiente, bom para a economia. Além de combustível, essas empresas utilizam o óleo na fabricação de ração animal, sabão, entre outros produtos derivados. Boas novas, hein?

Mas eu me pergunto até onde vai a mobilização deste tipo de iniciativa por parte da população. Ok, é uma iniciativa nova. Muito mais recente do que a coleta seletiva de lixo, que já mobiliza boa parte da população. Mas o mais deprimente mesmo é constatar que, mesmo eu, já ciente do programa e de como me livrar dos meus resíduos culinários de forma politicamente correta, o que eu fiz a esse respeito? Nada. E não me orgulho disso. Não, não voltei a eliminar o óleo no esgoto doméstico. Eu só não me prontifiquei a dispensá-lo nos locais adequados. Minhas sobras das fritadas de pastel estão todas engarrafadas, há meses, prontinhas para seu destino correto. Não me faltou iniciativa. O que me faltou, nesse caso, foi persistência. E o que me sobrou foi preguiça.

O DMLU possui uma lista grande de locais de coleta de óleo de cozinha usado espalhados em Porto Alegre. Eu moro em Petrópolis. Um dos locais fica na esquina da Silva Só com a Protásio Alves, trajeto que uso diariamente para ir de casa para a faculdade e vice-versa. É um esforço mínimo o que eu teria que fazer. É só encher uma garrafa pet com meu óleo usado e desviar um nadinha só o meu caminho. Pronto: consciência e natureza mais limpas. É só colocar em PRÁTICA.

Se você nunca pensou no que fazer com o resto de óleo daquela fritada além de manda-lo ralo abaixo ou nunca se preocupou com isso pois não costuma se aproximar das panelas, procure se informar. O link para os locais de coleta de óleo em Porto Alegre é este. Uma pena que para ter mais participação um click apenas não baste.


Mauren Veras
mauren.veras@gmail.com