O terremoto político que abalou o governo Yeda poderia ser um bom assunto para um texto, mas não seguiria nem de perto o escopo deste blog, portanto deixarei o tema de lado para concentrar-me numa questão mais pontual (na foto: matéria publicada no Jornal do Brasil sobre o episódio).A moda agora, no que tange à administração estadual, são os Programas Estruturantes. Até encarte em Zero Hora saiu, dando publicidade a mais essa tentativa de reorganizar a casa e fazer funcionar adequadamente a máquina pública rio-grandense.
Em linhas gerais, trata-se de uma série de medidas que, segundo o site criado para divulgar essa nova maravilha da gestão pública moderna, pretendem "gerar mais oportunidades de trabalho, estimular a criação de um ambiente de inovação tecnológica e empreendedorismo, promover o desenvolvimento da infra-estrutura para aumentar a competitividade dos produtos gaúchos, incentivar o uso racional dos recursos naturais, melhorar substancialmente a qualidade dos serviços públicos e reduzir as desigualdades regionais". Enfim, acabar de vez com todos os problemas históricos de nosso estado, e tudo isso em apenas quatro anos.
Mas não era exatamente sobre isso que eu queria falar.
Inicialmente, minha idéia era falar um pouco sobre o PE – Programa Estruturante (adoram usar siglas na administração pública) – Irrigação é a Solução, cujas medidas visam a amenizar os efeitos das estiagens sobre a agricultura do Rio Grande, tornando-a menos vulnerável às condições climáticas e mais competitiva em relação a de outras unidades da federação. O projeto prevê a construção de barragens, açudes e cisternas para o acúmulo de água para usos múltiplos e um programa de capacitação dos agricultores nas técnicas de produção irrigada.Estão previstos ainda, no programa orçado em R$ 216 milhões, a construção das barragens Jaguarí e Taquarembó, as únicas ações realmente concretas do plano. As demais – Acumulação de Água para Usos Múltiplos, Planejamento Estratégico dos Usos Múltiplos da Água e Capacitação de Agricultores – são apenas formas genéricas de se repetir os objetivos do PE.
Não se fala – nenhuma linha – de onde virão os recursos hídricos para essa irrigação. Provavelmente será do aqüífero Guarani, maior reserva subterrânea de água doce do mundo, ocupando cerca de 1,2 milhão de km² sob terras pertencentes ao Brasil (70% da área total), Argentina, Paraguai e Uruguai (dividem os outros 30%). Em nenhum momento, fala-se sobre os impactos ambientais do projeto – pomposamente denominado "Programa Estruturante" – sobre o aqüífero.
E quem serão os grandes beneficiários dessas medidas? O pequeno agricultor rural? Ou as papeleiras que, na cara dura e bem embaixo do nariz do povo gaúcho, já ocuparam quase 5% do território do bioma pampa com plantação de eucalipto? Claro, nossa grande imprensa prefere acreditar que estão sendo gerados empregos e desenvolvimento na atrasada metade Sul do estado.
Digam-me, por favor: esses R$ 216 milhões, vocês acham que são investidos em quê? Em financiamento para projetos de irrigação para a agricultura familiar? Ou para irrigar eucalipto?

1 comentários:
é muniz, e quem sofre com a politicagem de certos políticos que não enxergam o óbvio somos todos nós.
ou será que eles não percebem que o desenvolvimento que tanto pregam precisa ser repensado?
enfim, triste
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